terça-feira, 3 de novembro de 2015

O Caminho de Pernambuco


  
O CAMINHO DE PERNAMBUCO
Eliane Marques Colchete
Luís Carlos de Morais Junior


  
               1 – Cantiga de Pernambuco

Triste sina
Do pequeno Pernambuco!

Todo dia assiste assim
O sol no cocuruto

Lá na igrejinha branca
Os sinos tocam

Per-nam-bu-co!
Per-nam-bu-co!

Como um relógio cuco
Como uma foca bate palma
Como uma mula manca

Bate sino

Pernambuco
  
               2 – A igreja

O padre sempre fala:
- Pernambuco, Pernambuco
Você precisa de tudo
Que o mundo quiser dar

Você veio do nordeste
Na barriga da mamãe
Sua família é modesta
Você é fanho

Fala calo invés de carro
(Deve ter a língua presa)
Você não sabe contar
Não sabe ler

Pernambuco tome jeito
Você precisa aprender
A ser o que a gente
Puder fazer de você! -

E o padre ria amarelo
Batia em sua cabeça
Pernambuco olhava pro céu
E o sino tocava à bessa

Tava na hora da missa
Da hóstia
E da reza
  

       3 - A escola


A igreja branca
Madrugada rosa
A missa acaba
Pernambuco vai embora

A terra é grande
(Maior que a lua)
As duas são redondas
E o sol é maior que tudo

A tia dizia
Pernambuco ria

Se você diz: o
Escreva uma bola
Se quiser um a
Na bola põe um rabo

A tia ensinava
Pernambuco sonhava
 Com jogo de bola com pique
Com alçapão que ele armava
Com um gato um porco um pato
Passarim canela fina

O Nordeste é uma região do Brasil
De um lado está a Bahia
Do outro lado Maranhão
No miolo Piauí,
Ceará, Rio Grande do Norte,
Alagoas, Paraíba
E... Pernambuco!

E a turma
Explodia em zombaria,
Piparote, cocuruto,

Pernambuco se defendia

E a tia dizia: - Chega
De bagunça e brincadeira!
  
               4 – O trabalho

De tarde Perna
Vai prà venda
Do Seu Manel

E faz entrega
Vende cheiro-verde
Embrulha no papel

Vai trocar dinheiro
Não pára pra nada
E volta logo

Réstia de cebola
Quilo de batata
Meia dúzia de ovo

Só resta
(Depois do trabalho)
Jogo de bola de meia

É batata

               5 – Outro dia na escola

A tia ensinava
Perna fugia

Trepava na árvore
Catava laranja
Tirava banana
Tacava limão
No quintal do Seu João

A tia ensinava
Pernambuco nem sabia

- Pernambuco, Pernambuco... -
A tia ralhava
A meninada ria
  
Um dia entrou na escola
Sem ninguém saber de onde vinha
Uma menina esquisita
Não falava
Não brincava
Não sorria.

Quem seria
Essa menina?


               6 – A fofoca das matracas

E disse me disse
E fala que fala
É daqui é de lá

Todos querem saber

É preciso adivinhar
Ela só diz:

“Presente”

Quando a tia chama:
Patrícia

Maneco oferece maçã
Jandyra empresta a boneca
Marília fica invejosa
Ninguém mais quer saber dela

Mas Patrícia não responde

Não brinca, não come,
Não nada
“Patrícia é uma chata!”

A casa é amarela
Grande e bonita
É a casa de Patrícia
Não fica perto da praça
Não fica perto da igreja
É lá perto da estrada
É quase no fim do mundo
Na saída do subúrbio
  
               7 – Primavera

Como que ele sabe?
Porque depois da aula
Pernambuco segue ela
Chega atrasado na venda
Seu Manel não notou
Subiu a estrada
Depois da missa

Passa por lá

O padre reclamou
Tem faltado muito
A professora chiou
Feito chaleira velha
Antes do café
Depois do jantar
Nem vai no campinho
Voa passarinho
Ninguém pra matar
Ué!
Cadê Pernambuco?
Êta menino maluco!

Ele não fala nada

  
               8 – O presente da Fada

A caminha é de caixas
Da loja do Seu Manel
Perna pensa que é um fósforo
Que acende quando ele sonha
E toda vez que ele fecha os olhos
O mundo fica dourado

Aparece uma montanha alta
Toda feita de cristal
No topo está um palácio
Que tem uma porta encantada
De guarda fica um dragão
Do tamanho do Brasil
Perna pergunta:
“Posso passar?”
O Dragão responde:
“Só se a Fada deixar”
  
De repente o céu fica amarelo
E verde e azul e vermelho
Explode uma chuva de estrelas
Que caem num pó prateado
A porta se abre
O palácio some
Patrícia aparece
Na montanha enorme
 Vestida de rosa
Dos pés à cabeça
Uma coroa de jóias
Brilhando na testa
“Pernambuco” ela fala
E começa uma festa

A galinha toca corneta
O marreco dança com a pata
A minhoca senta na cadeira
E começa a cantar uma ópera
  
Peixinhos azuis fazem balé
Um galo vestido de baile
Apita triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmm

O relógio acorda
Perna pula da cama
Que sonho encantado!
Só pode ser presente da Fada
 Patrícia é a Fada
Da Montanha de Cristal
  
               9 – A casa

Pai de pedra
Mãe de fogo e água

O pai constrói
A mãe cozinha e lava

Um galo só
Levanta o sol
De tão alto que é
O seu cocoricó

Uma irmã pequena
Um gato fujão
Um cachorro velho
Um bruxo de pano

Seis cadeiras e uma mesa
Rádio e geladeira
O pai está juntando dinheiro
Pra comprar uma tv
  
O amigo do pai é o Zé
Que faz cordel
Naquela noite Pernambuco não dormiu
Ouvia as poesias do amigo
Com os olhos brilhando
  
               10 – O tombo bom

Jamelão é uma fruta engraçada
Toda preta deixa a língua roxa
Bem pequenina, a árvore é alta
Cheia de galhos,
Tão bom de subir!

É coisa de Fada
Ter um pé de jamelão no quintal
Pernambuco pensa lá em cima:
Tão bom estar aqui!
 Lá vem Patrícia
A menina Fada
Ela pára embaixo da árvore
O vento tremelica o galho
Que tremelica Pernambuco
De nervoso

CATAPLUM!

UÁÁÁÁÁÁÁÁUUUUUU!
ÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁIIIIIIIIIIII!
  
Tombo,
Berro,
Susto.

Pernambuco olha Patrícia

Que olha Pernambuco

Que fica nervoso como fizesse mal-feito

De espiar a menina
Que tomou um susto daqueles

O vento sopra e ninguém fala
Patrícia encabula olhando pro chão
Que horror!
Do joelho de Perna
Sai um sangue vermelhinho

- Machucou?
 - Foi nada, não!
- Deixa eu limpar.
- Nem dói!
- Que nada, isso arde.

Ela leva Pernambuco

Para a tia medicar
No caminho vão contando
Histórias gozadas do tombo.
  
               11 – A Fada ao vivo

- Se você não é fada
Eu sou um sapo
Que virou príncipe
Fantasiado
De paraíba

- Se você é paraíba
O Nordeste deve ser bem bonito

- Se você é Fada
Faz chover mingau
Faz o sol vir aqui
Brincar de batalha naval
Faz criança poder casar
Faz minha mãe ter tv
Faz o mundo rodear
Com a gente dentro
No meio do mundo enorme
Tão enorme

E dizem que ainda tem mais

  
- Eu não sou fada não
Bem que gostaria
Mas eu já vi um velho
Que mora sozinho
Que eu acho que é um bruxo
Terrível

- Você pode não ser fada
Ou pode estar disfarçada
E não querer me contar
Pelo sim e pelo não
Eu vou te chamar de Fada
Só de Fada eu vou te chamar

               12 – Mãe x tia
  
Tia: Não presta atenção
   Não faz o dever
       Nem vem mais às aulas,
       Que se há de fazer?

Mãe: Menino danado
       Se dá castigo ele some
       Se bate ele diz: “Não choro”
       Se eu choro ele diz: “Melhoro”
   E vai ver, fugiu da escola!

Tia: Bater não se deve
       Castigo é melhor
       Pra dizer taboada
       Até recitar de cor

Mãe: Copia cem vezes
       O dois vezes dois,
       Eu disse para ele,
       E mostre depois
       O tinhoso me volta

       Com cópias xerox!

Tia: O jeito é deixar
       Sem sobremesa...

Mãe: Só se tirar
       O que tem na mesa!

Tia: Não deixe então
       Ver televisão!!!
 Mãe: Só se mudando
       O canal do patrão.
  
       13 – O bruxo

Patrícia mostrou a estrada
Pé no medo  e se ele vê?
No meio do mato alto
Quatro olhos espionam

Demora um pouco de nada
Tudo em volta é silêncio
Até que acontece algo
Ele abre a porta do pátio

Velho curvado resmunga
Cospe fuma cachimbo
Olha tudo e ri baixo

Vira e volta pro buraco.
 Acha que ele enxergou?
 Claro! Ele é um bruxo!

       14 – O pai

O pai cabisbaixo
Sentado na sala
Na hora do almoço

A mãe nada fala
E serve uma sopa
De galinha com osso

Perna se assunta
Pergunta e espia
É tudo esquisito

Será se é porque
Ele não quer aprender?

Será que é doença?
O menino pensa.

No dia seguinte
Ele descobre sozinho
Seu Manel contou
  
Que o Seu João disse
Que o pai perdeu o emprego.

Era só isso?
Se é, não tem mosquito!
Seu Manel tem sempre serviço.

Seu dinheiro não dá,
A mãe explica.
Pernambuco responde:
É preciso pensar.
  
               15 – A ideia

Antes da estrada tinha uma fazenda
Na fazenda tinha um engenho velho
Perto do engenho ficava um rio
Com um caminho que dava na estrada

Perna levava Patrícia no rio
Para cismarem segredos do bruxo
Mas a Fada estava tristinha
E Pernambuco caladão

Tinham ideias para arranjar dinheiro
Tinham medo do pai querer voltar
E Pernambuco ir para Pernambuco
Pernambuco, Pernambuco
A Fada falava baixinho
Até os peixes estavam quietos
Para não atrapalhar o pensamento

Perna queria pedir à Fada
Um jeito do pai arranjar emprego
Mas ficava com pena

A Fada queria ser fada
Para fazer uma mágica
Uma mágica!
Mágica de bruxo
O bruxo faz mágica
Pedir mágica ao bruxo
A Fada falava no maior entusiasmo
Que tinha inventado uma idéia

Então combinaram de levar:

2 cordões de dentes de alho
1 crucifixo
1 terço
2 medalhinhas de Santa Bárbara
(Para proteger o Anjo da Guarda)

E 1 gato preto
(Para dar de presente
E agradar o bruxo)
  
       16 – O pedido

No meio do mato entre galinha e pato com sapato furado
Amuleto e gato Pernambuco e Patrícia com medo e perícia
Procuram o bruxo na casa afastada onde gritam e batem
Palmas “ó de casa” até que a porta se abre
E o bruxo vem falar. Os dois não saem correndo porque
Estão com as pernas paralisadas de pavor.
O velho diz: - Sim? Boa tarde. O que vocês desejam?
O menino diz: - Eu quero conhecer o mundo todo.
- E eu com isso? - disse o velho.
- O senhor é um bruxo. Eu sei.
O velho riu de boca fechada.
O tempo fechou.
Patrícia amarrou a cara.
Tudo em volta desapareceu.

- Você se esqueceu de dar o gato preto!
Estavam em algum lugar estranho.

     17 – As inglaterras da vida

Em algum lugar estranho
Onde o dia está nascendo
E as pessoas todas fazem
Movimentos muito lentos
Em homenagem ao sol
Onde só de bicicleta
Se pode andar pelas ruas
Todas cheias de chineses
(Não só nas pastelarias)
Mas onde o guarda é chinês
O vendedor é chinês
As crianças são chinesas
E o cachorro é pequinês.
Zuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuum!

E já estão em outro canto

Onde uma voz apaixonada
Sob o sol da meia-noite
Canta: ‘Olhos negros, te amo.”
Mas o cara canta em russo
E eles não entendem “kak iá vas lhiublhiú!”

ZUUUUUUUUUUUUUUUUUMMMK!

Isso aqui é França!
Patrícia metida a esperta
Sabe o que é Torre Eiffel
E Torre Inclinada de Pisa
(Isso foi em Pisa, é claro,
E Pisa fica na Itália,

Mas a viagem é rápida

E tudo se embaralha.)


- Não tem graça! Parece tv!
  
       18 – O novo pedido

- Agora você vai falar com ele
Que história foi aquela de pedir pra viajar?
- Não sei o que me deu. Meu pai perdeu o emprego
Tantas vezes, que eu não quis desperdiçar o bruxo.
- Mas a gente não lhe deu o gato preto
Ainda há uma chance que ele atenda seu pedido.
- Certo.

O velho surgiu nítido
Nas retinas dos olhidos do menino
E da bela menina. E disse seu nome:
- Antão Bartholomeu Gusmão Romeu Avone
- Prazer.
- Muito prazer.
 - Meu nome é Pernambuco.
- O meu nome é Patrícia. Delícia de viagem.
Mas dava pro senhor fazer outro favor?

E Pernambuco, antes que ela falasse:
- Nós queremos conhecer o espaço sideral!
E tudo em volta desapareceu.
  
       19 – Perdidos no Espaço

Uma luz muito clara
Que não machuca a vista
Um calorzinho gostoso
E um cheiro de amendoim
Faziam as crianças sentirem
Uma cosquinha na boca

Onde estavam?

Numa cadeira reclinável
No meio do espaço sem fim

De repente
Olharam para baixo
Estavam numa sala com sinteco
E ali pertinho
Uma aranha jogava bola de gude
  
De repente
Olharam para cima
Chovia uns pinguinhos de prata
E Patrícia vestida de fada
Estavam no sonho de Pernambuco

De repente
Olharam em volta
Havia uma névoa cor-de-rosa
E um bichinho muito engraçado
Voava na névoa e mudava de cor

De repente
- Ué! Para onde vamos olhar agora?

E estavam ali no quintal
  
       20 – O último pedido

- Dessa vez eu peço, juro! -
Pernambuco em apuros
Patrícia ultra da vida
Desse menino maluco
Que não faz nunca o devido
E que não pede pro bruxo

Um emprego pro seu pai.
- Aí vem ele, Pernambuco!

O velho chegou bem sério
E falou: - Foi tudo oquei?
- Muito linda essa viagem
Pelo espaço, Seu Antão.
Será se seria abuso, não sei...

- Eu concedo outro pedido
  
Só mais um.
Este é o ÚLTIMO!

E Pernambuco gritou apressado;
- Eu quero o FUTURO!
  
       21 – O futuro

Discos voadores particulares
Um trânsito sobre a cidade.
Sons que saem de todos os lugares
Luz branca sem eletricidade.

Pula.

E pequenos seres lilás
(Ou melhor: furta-cor)
Nem melhor nem pior
São os caras atuais.

Pula.

Índios de tanguinha
Cauim & Cauim
Tribo na guerra do acaju
Piolho, rede, sururu.

Pula.
  
Cidade de concreto
Homens neuróticos
Não, são robôs
Os homens agora vivem no mato.

O futuro pula pula pula


Perna & Patri não entendem nada
O futuro pode ser tudo
Pula pula pula pula
Exato
Feito um sapo


       22 – Cadê?

Lá no rio da fazenda
(Lembram-se?)
Patrícia e Pernambuco
Um fala outro escuta
Discutem e calam
Cisma - resmungo - esperança
Decidem:

- Vamos tentar.

Lá na curva da estrada
Andam correm vão embora
Com medo vergonha e pressa
Vão pedir mais um pedido
Só mais unzinho só

Afinal, vocês viram?
O pai de Pernambuco
Ainda está desempregado!



Uma linda casa rosa
Um casarão enorme
Uma piscina azul cheia de peixes raros
Também um viveiro de pássaros
De todas as cores
E todas as flores
Que jardim tem.

Como tudo mudou!

Bateram. Veio uma moça

E Perna perguntou:


- Cadê Seu Antão?
- Não mora aqui não.

- O Seu Bartholomeu?
- Não é parente meu!

- E o Seu Gusmão?
- Não conheço não.

- Pô! E o Romeu?
- Nunca aqui se viu.

- Onde foi o Seu Avone, então?
- Não sei nada não.

Ela fechou o portão.
Eles se foram.
O bruxo desapareceu
No ar, que nem bolha de sabão.
  
       23 – O caminho de Pernambuco

- Um bruxo daqueles também
Não ia ajudar ninguém!

- Todo confuso e errado
Foi melhor não ter pedido!

Consolo de pobre é
Coçar o bicho do pé.

Pernambuco perdeu a chance
Então deixou pra lá, com elegância.

Foi pra casa triste sim
Mas foi sorrindo

E pelo caminho
Quem ia passando
Ia pensando
Em suas vidas
Sem reparar
No menino
Bonzinho

Que ia
Ali
E ia em frente
Sempre


       24 – Surpresa!

Ao chegar em casa

Queria só ir sonhar
Com a Fada
Ou com qualquer coisa.

Mas tinha festa
Tinha alegria
O Zé cantava
Seu pai sorria

O Zé é bom amigo
E arranjou um bico
Pro pai de Pernambuco
Vender folheto de cordel com ele
Na feira nordestina
 Tinha tanta coisa boa, gente!
“O Verdadeiro Romance
Do Herói João de Calais”
(De Severino Borges)
“Bom Tempo não Volta Mais”
(De Apolônio Alves dos Santos)
“Abidala e Edileusa”
(De Severino dos Santos)
E o “Trem da Madrugada”
(De José João dos Santos
De codinome Azulão.)
E o esperto “Cancão de Fogo”
(De Leandro Gomes de Barros)
E a maravilhosa história
“Dum Pavão Misterioso
Que levantou voo da Grécia,
Com um rapaz corajoso,
Raptando uma condessa,
Filha dum conde orgulhoso”
(De José Camelo de Melo
Resende, poeta à bessa).

       25 – Pernambuco vai à luta

Bela sina
Do pequeno Pernambuco!

É ele que faz seu caminho
Com o coração.

Longe da sina e do sino
Longe de qualquer pecado
Pernambuco desde menino
Já era um cabrito marcado

Pra viver
E fazer poesia
E fazer cantoria no meio da praça
Canta rima Pernambuco

E o povo que passa
Pode ter um momento feliz

E Patrícia

Bate palma, entusiasmada.




O POLVO PAVLOV



Eliane Marques Colchete

Luís Carlos de Morais Junior

No mar aberto, longe das praias do litoral, vive um polvo muito especial. Ora, me perguntará você, especial em quê?
Bem, primeiro eu posso dizer que esse polvo tem um nome.
Sim, como todos os bichos, ele tem a sua língua, e em sua língua de polvo ele sempre falou.
E o seu nome é polvo Pavlov.
No dia em que o polvo Pavlov nasceu os seus pais ficaram em polvorosa.
Ora, e por quê? - pode perguntar você.
É simples: quando Pavlov nasceu e ainda era um bebê ele já tinha o tamanho de um polvo adulto!
Ele não tinha culpa!
E desde o primeiro dia ele danou a crescer sem parar!
Todos na Cidade dos Polvos... (pois eles viviam numa grande cidade no mar, que aliás se chamava

POLVÓPOLIS


- pois polvo quer dizer polvo e pólis quer dizer cidade.)
Pois bem, como eu dizia, a cidade inteira comentava cheia de espanto o tamanho gigante daquele menino polvo.
O povo gosta de falar:
- Eu acho que ele não se manca!
- Eu acho que ele é gigante!!
- E se ele quiser nos agarrar!!!
Mas o povo dos polvos é tão preguiçoso que logo se cansou de fofocar, e foram todos fazer suas coisas e deixaram o Pavlov pra lá.
Polvo gosta de dançar com todas as suas pernas uma dança lenta e bem elegante.
Polvo também gosta de brincar de cometa nadando com os tentáculos juntos como se o oceano fosse o cosmos.
E polvo gosta de passear.
Pavlov se sentia sozinho porque ninguém queria passear, conversar e brincar com ele.
Então ele ficava passando de lá pra cá, conversando consigo mesmo.
Mas Pavlov foi ficando crescido (mais crescido ainda!) e agora ele queria porque queria... uma namorada!
Um dia ele viu uma pequenina anêmona, que é um bicho assim:


Y



e que fica grudada no chão do mar.
Pavlov perguntou pra ela:
- Por que você está de cabeça pra baixo? Está fazendo ioga?
E tentou desvirá-la.
Ela gritou:
- Me larga!
Então ele perguntou:
- Você não é um polvo?
Ela riu e disse:
- Não! Eu sou uma anêmona-do-MAR e meu nome é Cyba-Nêmo Lena, mas pode me chamar de Cyba Lena.
- Você vive aqui sozinha? - Pavlov quis saber.
- Não - respondeu a anêmona - Eu vivo em Pólipopolis, a cidade dos pólipos, quer dizer, das anêmonas.
- E você é animal, vegetal ou mineral? - Pavlov, indiscretíssimo, indagou.
Aí a Cyba Lena gritou alto:
- Animal, animal, é melhor e não faz mal!
E Pavlov seguiu seu caminho
pelo oceano que parecia infinito
cansado de se sentir tão sozinho
e procurando um amor bem bonito
Por que será - se perguntava o grande polvo - que ninguém no mundo é assim como eu?
De repente ele avistou alguém parado no meio da massa do mar.
Era um submarino enguiçado, mas Pavlov pensou que era uma tímida polva que, como ele, tinha o tamanho exagerado.
- Olá, como vai? Tudo bem com você?
Pavlov puxava conversa, passeava na frente do sub, jogava charme, fazia ondinha.
E o submarino nem nada, só ali parado, calado.
Os dias se passaram e Pavlov descobriu que estava apaixonado.
E agora? E agora? E agora? E agora?
E agora? E agora? E agora?
Um dia veio outro submarino que fez reparos e colocou óleo naquele que estava quebrado. E os dois saíram juntos pelas águas, lado a lado, foram navegando, navegando...
                                   e foram embora.
E o polvo Pavlov chorou de dor-de-cotovelos, pois pensou que os dois submarinos eram casados.
E ele continuava só.
  
Mas aí... mas aí...
                                         ele viu algo incrível!
Ou melhor: alguém incrível!
O melhor: uma polva incrível!
Uma polva linda e



GIGANTE!



Ela vinha de seu lado cabisbaixa e pensativa. Parece que ela também se sentia tão sozinha por ser considerada grande além do que devia.
E aí eles se viram.
Seus olhos se encontraram.
E então eles sorriram.
E se cumprimentaram.
- Meu nome é Polvo Pavlov.
- Meu nome é Polva Pólvora.
E aí eles dançaram do jeito que queriam, espalhando muita água e levantando a areia do fundo do mar. E os peixes e navios, as estrelas e os ouriços, as baleias e as sereias, as lulas e os caramujos, os grilos e os passarinhos começaram a cantar e a sorrir felizes, porque o amor dos dois polvos gigantes Pavlov e Pólvora agiganta a vida, é uma usina de alegria, e faz o mar transbordar.


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